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sábado, 18 de junho de 2011

Orlando

Confesso que, das obras que já li de Virginia Woolf (Mrs. Dallaway e As ondas e alguns contos) Orlando foi a primeira que senti que de fato dialoguei com. Creio que não estivesse preparado, ou não estivesse disposto anteriormente. Torna-se, agora, urgente a releitura das já citadas e a leitura das outras. Porque Virginia exige muito do leitor. Mas o recompensa mais ainda!

Escrevo isso não para assustar o eventual leitor deste blog, mas para alertá-lo de que, se alguma vez tentou ler essa curiosa britânica e a experiência não foi tão positiva, por favor, não desista, espere um tempo, leia outras coisas e tente outra vez. Porque Orlando é uma obra-prima!

Orlando é uma personagem angustiada porque não se encaixa na sociedade, em momento algum, pois vive durante séculos e passa por inúmeras transformações - a maior delas é a mudança de sexo. Orlando tenta se adaptar ao convívio social, a normas, a regras, e tenta se adaptar ao seu corpo, primeiro de homem e depois de mulher, e às suas vontades e desejos. Há sutis críticas à "evolução" dos costumes sociais, e à falta de liberdade que essa forma de convívio traz aos seres humanos.

Orlando foi homem, Orlando foi mulher, e viveu por muitos séculos. Orlando teve muitos "eus". Mas nunca obteve sucesso em "ser".

terça-feira, 29 de março de 2011

A metamorfose

Li, desta vez, A metamorfose, de Franz Kafka.
Creio que o enredo seja de conhecimento geral, mesmo assim aqui vai um resumo: dada manhã, Gregor Samsa acorda metamorfoseado num asqueroso inseto. Á princípio, consegue ao menos comunicar-se como humano, mas até isso muda com o passar do tempo. Sua família passa a ter que conviver com esse estranho ser dentro de casa, até ao ponto em que não suportam tamanha provação. Gregor, então, recolhe-se ao seu quarto e morre.

Gostaria de fazer pequenos apontamentos:
- Chamou-me bastante a atenção o nome Samsa. Será mera coincidência a semelhança com Samsara (informem-se)?
- A metamorfose de Gregor nunca é, ao meu ver, totalmente efetivada, uma vez que, até o instante em que ele morre, consegue compreender a linguagem humana, apesar de não conseguir se enunciar através dela.
- O título é interessantíssimo, pois não se trata somente da transformação de um homem em um inseto asqueroso, com toda a simbologia que isso traz consigo, mas também da transformação dos membros de sua família que, de início escorados nos esforços da força de trabalho de Gregor para garantir seu sustento, passam a buscar trabalhos e novos sentidos para suas existências.
- Interessante pensar na perspectiva de que alguém, mesmo sendo humano, sendo diferente do padrão é motivo de vergonha e desgraça para os outros, e por isso se isola do convívio social. Precisa ser assim?
- Também interessante pensar que, ao ter sua animalidade revelada a olhos nus, Gregor perde sua identidade e passa a viver confinado num quarto, sendo cuidado, porém esse cuidado está claramente travestido em vigilância.
- Por que será que é uma empregada, já velha e construída pelos anos de trabalho, a única que não sente nojo e desprezo de Gregor? Por que ela, ao final, é quem percebe e transmite a notícia da morte da criatura, libertando a todos do sufrágio?
- Tem, Gregor, culpa de sua metamorfose?

Boas reflexões. Ah, e boa leitura!

sábado, 26 de março de 2011

Noite - Érico Verissimo

Desconhecido é como se refere o narrador ao protagonista dessa novela do bom e velho Erico.

Desconhecido porque é alguém estranho, mas não estranho no sentido de excêntrico, já que o personagem é somente um homem de meia idade engolido por uma cidade e uma rotina que o transformam não só em mais um em meio a tantos, como também capturam e se apossam de sua identidade. Estranho porque, sendo tão comum e ordinário, não se dá por conhecer. Do contrário, permanece oculto, inclusive a si próprio. Permanece dentro da noite escura. Escura, mas não vazia. Há maravilhas a serem descobertas pela noite, mas também perigos - qualquer semelhança com o ics (inconsciente) não é mera coincidência.

Novela curta e construída com lirismo, Noite é a história de uma noite na vida de um homem devassado por um trauma de infância e desgastado pela rotina e pelos costumes tradicionais da vida em uma cidade, muito provavelmente Porto Alegre, a julgar pelo conjunto da obra do escritor. Nessa noite em específico, ele perde a memória, outro motivo para ser simplesmente o Desconhecido. Então, durante essa noite, várias coisas acontecem, enquanto ele procura por si e por sua história.

Não direi se tratar de o melhor do mestre Erico. Ainda assim, é Erico.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Teatro completo

Andei afastado deste blog por boooooooooooooooooooons tempos. Hoje de manhã terminei de ler o Teatro completo, de Hilda Hilst, e coincidentemente recebi um comentário sobre uma de minhas primeiras postagens. Assim, num sei lá, me deu vontade de escrever aqui novamente.

Pois bem, o livro é composto por oito peças teatrais, escritas durante cerca de 3 anos, de 1967 a 1969, ou seja, o ponto alto da ditadura militar brasileira (me recuso a usar letras maiúsculas). Importante ressaltar esse fato, já que pelo menos duas das peças estão escancaradamente ligadas a isso. Ou melhor, em se tratando de HH, não posso dizer escancaradamente. A mulher foi poeta da mais alta estirpe, e se se lançou a escrever teatro, foi porque sentiu essa necessidade - já ouviram\leram a palavra zeitgeist? não? informem-se. Sendo poeta, ah, tive uma ideia, sendo POETA, seu teatro não seria somente dramático, levando seus personagens a representarem conflitos entre si. Transcendendo por cada uma de suas palavras está o lirismo, a subjetividade do eu. Talvez o conflito dessas peças seja basicamente entre o eu e o eu (que faz o ser humano de sua existência torpe?), porém não sem duras críticas aos homens de seu tempo.

Outro fato a ressaltar é a recusa hilstiana de se enquadrar (delimitar) a um gênero. A palavra, a linguagem, são duas coisas majestosas, e a relação com o mundo é tão intensa e complexa e caótica (não, eu não fui descuidado, escrevi mesmo intensa E complexa E caótica, leia mais poesia, estranhado leitor) que um só gênero textual, uma só configuração não são suficientes para a grandeza do talento de HH. Mais importante que contar histórias e representá-las é senti-las, é emocionar-se, é compreender usando o corpo inteiro, é integrar razão e emoção. É por isso que Hilda pega a linguagem e a desdobra, obrigando-nos, leitores, a sentir seu texto. Suas ficções em prosa, posteriores às peças teatrais, estão permeadas de poesia, ou seja, prosa poética, ou seja (é intencional!) os gêneros se misturam, confundem-se e fundem-se num caos organizados pela precisão da pena da Poeta.

Tal é sua ousadia, tal sua magnificência (neologismo? ahn-ahn, consulte um dicionário) que em dado momento de sua carreira literária, munida de seu singular senso de humor, ela resolveu chamar a atenção do público e dos editores com textos pornográficos. Quem consegue unir pornografia e metafísica? A obscena senhora Hilda Hilst.

Mas voltando ao teatro, não colocarei aqui resumo de nenhuma das peças por dois motivos. O primeiro, seria por demais exaustivo, posts de blogs devem ser curtos. O segundo, enredar (dicionário leitor, dicionário...) um texto hilstiano é tarefa hercúlea, e eu não tenho nenhuma pretensão heroística. Pra não parecer preguiçoso, caríssimos leitores, deixo-lhes os nomes das peças: "A empresa", "O rato no muro", "O visitante", "Auto da barca de Camiri", "As aves da noite", "O novo sistema", "O verdugo" e "A morte do patriarca".

Boa leitura!

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Acenos e afagos

De antemão aviso: não é um livro fácil, mas é maravilhoso!

Acenos e afagos, de João Gilberto Noll, é um livro escrito em um só bloco de texto. Não há parágrafos, não há figuras, não há espaços. Há somente o fluxo de consciência do narrador protagonista, de forma fragmentada, não-linear. Ou seja, complexa.

Mais ainda pela trajetória do protagonista. No início, homem confuso relembrando fatos marcantes do passado, cuja vida vai o levando a uma espécie de loucura (ou lucidez extrema). Uma história regada a sexo e perversões, mas não de forma parnasiana (arte pela arte, sexo por sexo). Há um sentido nas peripécias sexuais do homem. Há uma busca.

Escrevi antes no início homem, porque há transmutação. Não se trata de ambiguidade, de dúvida, mas sim de um homem que passa para outro lado, que se vê e se sente mulher em dada parte da narrativa. Por se tratar de literatura, é possível e verossímil, dentro da obra, que o corpo mude do personagem mude. Ao final, protagonista não é homem, não é mulher, não é bicho. É algo dos três e ao mesmo tempo nenhum. É uma criatura, se divina ou profana não sei, que é capaz de sentir na carne os prazeres masculinos e feminios, que é capaz de gozar como homem e como mulher.

Nestes tempos de crise masculina, considero Acenos e afagos uma obra prima.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Feriado de mim mesmo

Um livro agonizante, Feriado de mim mesmo, de Santiago Nazarian.

Um homem solitário que, obviamente, mora sozinho. Ou será que não?
Um homem que faz traduções para ganhar dinheiro e viver sua vidinha livre dos comportamentos pre-estabelecidos da sociedade, e tem um padrão de vida confortável. Ou será que não?
Um homem que tem o controle de tudo que faz. Ou será que não?

Leitor, deves estar pensando: qual o motivo dessas perguntas? Respondo: servem para instigar-te a ler o livro, e também para anunciar como ele é escrito.
Narrado em terceira pessoa (em sua maior parte, com uma surpresinha ao final), tempo verbal passado, o livro conta a história de um jovem solitário e entediado, mas que começa a não mais entender a realidade a sua volta. Um homem talvez cansado de si próprio, que inventa outros, ou que simplesmente deseja não mais ser, um feriado de si mesmo. Coisas muito estranhas acontecem a sua volta. Quem será o responsável?

Leia e descobrirás. Ou não.

Aproveito para dizer que já li outro livro do autor, Mastigando humanos, mas não gostei tanto quanto este sobre o qual aqui escrevo. Ainda, Nazarian acaba de lançar outro romance, chamado O prédio, o tédio e o menino cego. Pretendo lê-lo logo.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Até o dia em que o cão morreu

O que anda ocorrendo com a geração jovem atual?
Falta do que fazer? Comodismo demais? Falta de um ideal pelo qual lutar?

Deixo as perguntas propositadamente sem repostas. E convido você, que está a me ler, a ler o livro Até o dia em que o cão morreu, de Daniel Galera.

História de um jovem que seguiu a risca o script da vida: escola, cursos, esportes, documentos e compromissos etc etc... e se encontra formado na faculdade de Letras, sem emprego e perdido. Isso mesmo, ele se encontra perdido. Sem vontade de nada.

Aparece um cão. E aparece uma mulher. E o resto não vou contar.

Só digo que li o livro em algumas horas, do início ao fim.

Boa leitura!

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Água viva

Promoções de livros no Submarino provocam um rombo no meu orçamento... Há um tempo comprei vários livros da Clarice Lispector, Deusa da Literatura Brasileira.
Li Água viva.

O que dizer sobre? É complicado, assim como sua leitura. Somente lendo pra sentir, pra saber. Mas não aconselharia a um leitor iniciante.

A obra nada mais é que um grande poema escrito em forma de prosa com profundas reflexões existencialistas. Na contracapa, está escrito que há uma narradora feminina que escreve para um interlocutor masculino. Discordo. Sim, há uma voz narrativa feminina, mas não diria se tratar de narradora, nem de eu-lírico, mas de uma fusão de ambos. Mas não, não percebi que o interlecutor seja um homem. Minha impressão é de que ela dialoga com um ser indefinido, nem homem nem mulher, talvez nem propriamente um ser humano. Talvez ela esteja dialogando com o Divino. Talvez com o Transcendente. Talvez com, talvez talvez, cada leitor que perceba o seu.

Em uma frase, Água viva é um livro que fala sobre o que há por trás do pensamento.

Já escrevi aqui sobre A paixão segundo G.H., da mesma autora. Livros difíceis, cansativos, sofríveis, mas maravilhosos, essenciais. Livros "re": é preciso relê-los, pois ressignificam, repensam, refazem...

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

O paraíso é bem bacana

O título da postagem é o mesmo do primeiro romance de André Sant'Anna. O cara promete!

Uma narrativa fragmentada que se entrelaça perfeitamente, com maestria. Múltiplos narradores, múltiplas visões sobre um mesmo personagem profundamente complexo em sua superficialidade. Fluxos de consciência sensacionais. Texto bem humorado e fluido.

Chega de teoria.

Mané é um jogador de futebol promissor. Aquela velha história lugar-comum, menino negro favelado que joga bola como ninguém, é descoberto, levado à Alemanha, enriquece. Mas este menino é primitivo, ignorante, lesado, antissocial e por aí vai..., por ter sido atormentado a vida inteira por seus "amigos".

Enfim, ele se converte ao islamismo e explode uma bomba, querendo ser mártir pra recebe suas 72 virgens no paraíso.

Toda a crítica social e a qualidade literária do texto só desfruta quem lê.

domingo, 19 de julho de 2009

Máquina de pinball

Flávio Carneiro é um grande professor e crítico literário brasileiro, além de escritor. Já o ouvi na 12ª Jornada Nacional de Literatura, evento em que ele disse não gostar de falar mal de livro algum, portanto, somente faz críticas positivas.

Eu achei isso realmente interessante. Escrevi neste blog, até agora, sobre livros que li e gostei. Entretanto, sinto-me na obrigação de fazer um alerta aos leitores, fazer uma "desindicação", uma indicação de livro para não ser lido.
Trata-se do "livro" (entre aspas porque o objeto não corresponde à significação da palavra) Máquina de pinball, de Clarah Averbuck.

É ruim porque não tem história, não tem enredo, somente uma personagem mal construída que se comporta de maneira tão óbvia quanto dizer que a chuva molha. Além de a linguagem ser extremamente chula, sem cuidado nem trabalho. Parece um vômito de palavras, um desabafo de uma menininha irritada e sem nada de interessante pra fazer, dizer, escrever. Do início ao fim ela enrola, salientando que preenche seu tempo usando e abusando de drogas, transando por transar, ouvindo rock... Enfim, uma menina que pode ser classificada como vazia e supérflua, irritada e tentando manter uma pose de legal e moderninha.

Talvez isso seja o retrato de uma geração perdida em suas comodidades. Clarah é filha de um dos músicos do espetáculo Tangos e tragédias, portanto, tem (ou teve) acesso à cultura e tem (ou teve) dinheiro. Ela própria diz, ao final do livro, que qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. Eu tenho pena dela.

Lamentável.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Niketche

Paulina Chiziane, autora de Niketche uma história de poligamia, primeira mulher a publicar um romance em Moçambique, far-se-á presente na 13ª Jornada Nacional de Literatura.
Li o livro, excelente.
Rami conta como passou de uma simples mulher submissa a seu marido poligâmico a uma mulher forte, poderosa, orgulhosa de sua condição. Ela relata o processo de assumir sua femilidade e o que nisso há de inerente numa sociedade hipócrita. Por isso uma história universal, mesmo que limitada ao espaço moçambicano e a um tempo recente.
O livro tem denúncias sociais, tem lirismo, tem humor. O texto tem bastante fluidez.
Como legado, o romance traz à tona reflexões sobre comportamento. O quanto do que fazemos faz parte da nossa natureza? O quanto nossa cultura, nossas convenções sociais tolhem nossos comportamentos, ou nos forçam a fazer coisas que não desejamos, que ferem a nós mesmos ou a outras pessoas? Quão necessária e recompensante é a vingança? Quão necessária é a humilhação, para que renasçamos das cinzas e nos transformemos como seres humanos? Quanto de influência há em nós de nossas raízes familiares e culturais? Quão difícil é livramo-nos disso?
Essas seriam algumas perguntas às quais eu responderia se isto fosse um ensaio. Entretanto, é um post de um blog. Portanto, paro por aqui.

domingo, 31 de maio de 2009

Onde andará Dulce Veiga

O romance que acabei de ler, de Caio Fernando Abreu.

Um homem de meia idade acaba de conseguir um emprego num jornal. Um homem em crise existencial, desiludido, desanimado, deprimido.
Num estalo ele se pergunta "Onde andará Dulce Veiga?", cantora que prometia ser a maioral, mas sumiu, simplesmente sumiu.
Coisas várias acontecem, o homem ganha a incumbência de encontrar Dulce Veiga. E assim decorre a história, numa busca de desencontros e descobertas.
Encontrar Dulce Veiga é a missão do protagonista. Encontrar a si próprio é consequência. Um sumiço, uma vida indefinida, jornalista e cantora têm algo em comum.
Ao leitor, pistas de onde está a cantora, pistas de quem é o homem.
Exemplos: o narrador diz que Dulce Veiga cantava como se pedisse perdão por ter sentimentos e desejar. Do homem, lembra do relacionamento que teve com Pedro, que também sumiu.
Onde andará Dulce Veiga é um livro epifânico.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Miniconto

Já que faz tempo que ninguém posta nada, posto um miniconto

Criação

No sétimo dia, Deus descansou.
Quando acordou, já era tarde.

Tatiana Blum

sábado, 14 de março de 2009

Clarissa - Erico Verissimo

Serei eu o inaugurador oficial dos posts sobre Clarissa? Que honra...

Vamos lá: indiquei a leitura de Clarissa pensando em alguns apontamentos feitos por demais integrantes do grupo, tais como um livro mais antigo para fazer um contraponto com a atualidade. Clarissa é uma personagem ótima para isso. Logo no início o narrador da história já revela quem é ela: uma menina que está prestes a fazer 14 anos de idade, inocente e sonhadora. Isso se prova quando o fluxo de consciência da protagonista se faz presente na narrativa.

Já havia lido Clarissa não sei há quantos anos, por isso achei que o momento que vivemos daria um bom contraponto com a obra. E ainda nem sabia da notícia da menina de 9 anos que engravidou de gêmeos após ser estuprada pelo padrasto, do médico que realizou um aborto e depois foi excomungado. Espraguejei a “Santa” Igreja Católica até não poder mais. Entretanto, um amigo me disse “Isso é bom, faz as pessoas sentirem mais ódio da Igreja e se afastarem cada vez mais”. Tive que concordar. Abaixo a alienação religiosa. Mas isso é assunto pra outro post...

O interessante é que Clarissa, menina interiorana, bobinha até, vai estudar em Porto Alegre, a capital, e morar com sua tia numa pensão, onde há várias pessoas, várias culturas, várias diferenças convivendo diariamente, dividindo um mesmo espaço. Isso maravilha Clarissa, que viaja em seus pensamentos, talvez até se perca um pouco, mas ao se perder se encontra novamente, já em outro lugar, o que significa mudança, evolução. Clarissa tenta entender o mundo que a cerca, um mundo estranho, às vezes cruel, como para o vizinho Tinoco, às vezes delicado, como o presente de seu Amaro. Clarissa tenta entender as pessoas a sua volta, que estão sempre reclamando, sempre lutando, algumas meio tristes, outras brigando, outras misteriosas. Clarissa tenta entender a si própria, as mudanças no seu corpo e mente e aquela sua vontade de viver, de conhecer lugares diferentes, de sentir emoções diferentes, e de ser admirada pelos rapazes e arrumar um namorado. Aqui saliento novamente, ele faz 14 anos no decorrer da narrativa. Aliás, o presente que sua mãe lhe dá é a autorização para usar sapatos de salto. Alguma semelhança com a atualidade?

A mim mesmo perguntei e agora pergunto a vós, leitores, ainda existem pessoas inocentes como Clarissa? A história se passa no início do século XX, é verdade, quase 100 atrás, os tempos são outros, as necessidades são outras, incluindo a de ser precoce para atingir maior sucesso. Será isso positivo? Não fará falta a inocência, a descoberta de um mundo diferente no mesmo mundo em que sempre vivemos, o deslumbramento?

Pensei e pensei e lembrei que já fui inocente, infantil, bobo, e todas essas etapas da minha vida foram importantes. Se um dia tiver filh@s (uso arroba para não determinar gênero) espero que passem por todas essas fazes também, pois acredito que fazem falta, sim. Hoje perdi muito da inocência, eu acho, mas tento sempre manter o deslumbramento de que Jostein Gaarder diz serem feitas as crianças e os filósofos. Um pouco pretensioso, reconheço. Mas a vida não tem graça sem poesia, pelo menos não a minha...
Lembrei também de uma colega que tive no Ensino Médio. Uma menina linda e gostosa (os conceitos são diferentes, dependendo de quem fala, principalmente). Se ela quisesse, poderia ser femme fatale. Mas ela era tão inocente, tão pura em sua forma de conduzir a vida!

Finalizando o post (leitores, lei até o fim, por favor), Clarissa é um livro ótimo para repensarmos o deslumbramento com a vida. Não há grande metafísica, isso ficaria para o Erico Verissimo mais maduro, visto que Clarissa foi sua segunda publicação e primeiro romance. E a história de Clarissa segue, característica do autor de dar continuidade às vidas de suas personagens, no livro Música ao longe. Se quiserdes, podeis ler também Caminhos cruzados e Um lugar ao sol, nessa ordem mesmo. E a história ainda segue, mas confesso que só li até aí...

Boa leitura a tod@s!

sábado, 7 de março de 2009

A paixão segundo G.H.

É esse o título do livro que acabei de ler. O livro mais difícil, denso e perigoso que já li. É um livro sem volta, depois que você leu, a vida não é mais a mesma. Caio Fernando Abreu escreveu, no conto Eles, que está no livro O ovo apunhalado, que ver é irreversível. Clarice Lispector, a autora do livro do título, faz com que vejamos.
A história é de uma simplicidade imbecil, até mesmo: uma mulher, G.H., entra no quarto que pertencera a sua empregada para arrumá-lo. Mas a empregada o mantinha arrumado, entretanto, não como ela gostaria. Ela se sente desolcada em sua própria casa. E vê uma barata, e sente medo. Então faz as mais profundas e simples divagações filosóficas sobre ser e existir. O que acontece com ela e a barata eu não conto, só lendo para saber.
Clarice é uma deusa, uma feiticeira, pois suas palavras enfeitiçam. Ela constroi, depois desconstroi e destroi para novamente construir e destruir e reconstruir e desconstruir. Ela acaba com o que há dentro de nós. E depois preenche. Ela escreve com as mais simples palavras, as coisas mais banais, mas vai fundo nas agonias de ser e existir. Podemos sentir a dor dela ao ler, a imensidão de sua compreensão de mundo e de pessoas, de almas, de ser, de existir, de transcender.
Confesso que tive medo.
Ler Clarice é uma experiência singular e imprescindível. Ler A paixão segundo G.H. é sofrer todas as dores da humanidade e crescer imensamente. É uma experiência de paixão.Pra terminar este breve comentário louco, quero transcrever um pedaço do conto do Caio já referido:"
-Deixa que a loucura escorra em tuas
veias. E quando te ferirem, deixa que
o sangue jorre enlouquecendo também
os que te feriram."
Clarice o fez. Eu a feri. Ela me enlouqueceu.