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quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Água viva

Promoções de livros no Submarino provocam um rombo no meu orçamento... Há um tempo comprei vários livros da Clarice Lispector, Deusa da Literatura Brasileira.
Li Água viva.

O que dizer sobre? É complicado, assim como sua leitura. Somente lendo pra sentir, pra saber. Mas não aconselharia a um leitor iniciante.

A obra nada mais é que um grande poema escrito em forma de prosa com profundas reflexões existencialistas. Na contracapa, está escrito que há uma narradora feminina que escreve para um interlocutor masculino. Discordo. Sim, há uma voz narrativa feminina, mas não diria se tratar de narradora, nem de eu-lírico, mas de uma fusão de ambos. Mas não, não percebi que o interlecutor seja um homem. Minha impressão é de que ela dialoga com um ser indefinido, nem homem nem mulher, talvez nem propriamente um ser humano. Talvez ela esteja dialogando com o Divino. Talvez com o Transcendente. Talvez com, talvez talvez, cada leitor que perceba o seu.

Em uma frase, Água viva é um livro que fala sobre o que há por trás do pensamento.

Já escrevi aqui sobre A paixão segundo G.H., da mesma autora. Livros difíceis, cansativos, sofríveis, mas maravilhosos, essenciais. Livros "re": é preciso relê-los, pois ressignificam, repensam, refazem...

sábado, 7 de março de 2009

A paixão segundo G.H.

É esse o título do livro que acabei de ler. O livro mais difícil, denso e perigoso que já li. É um livro sem volta, depois que você leu, a vida não é mais a mesma. Caio Fernando Abreu escreveu, no conto Eles, que está no livro O ovo apunhalado, que ver é irreversível. Clarice Lispector, a autora do livro do título, faz com que vejamos.
A história é de uma simplicidade imbecil, até mesmo: uma mulher, G.H., entra no quarto que pertencera a sua empregada para arrumá-lo. Mas a empregada o mantinha arrumado, entretanto, não como ela gostaria. Ela se sente desolcada em sua própria casa. E vê uma barata, e sente medo. Então faz as mais profundas e simples divagações filosóficas sobre ser e existir. O que acontece com ela e a barata eu não conto, só lendo para saber.
Clarice é uma deusa, uma feiticeira, pois suas palavras enfeitiçam. Ela constroi, depois desconstroi e destroi para novamente construir e destruir e reconstruir e desconstruir. Ela acaba com o que há dentro de nós. E depois preenche. Ela escreve com as mais simples palavras, as coisas mais banais, mas vai fundo nas agonias de ser e existir. Podemos sentir a dor dela ao ler, a imensidão de sua compreensão de mundo e de pessoas, de almas, de ser, de existir, de transcender.
Confesso que tive medo.
Ler Clarice é uma experiência singular e imprescindível. Ler A paixão segundo G.H. é sofrer todas as dores da humanidade e crescer imensamente. É uma experiência de paixão.Pra terminar este breve comentário louco, quero transcrever um pedaço do conto do Caio já referido:"
-Deixa que a loucura escorra em tuas
veias. E quando te ferirem, deixa que
o sangue jorre enlouquecendo também
os que te feriram."
Clarice o fez. Eu a feri. Ela me enlouqueceu.